Abril 12, 2021

Análise: Bandidolatria em alta 

Ser de esquerda significa simplesmente escolher uma posição política que, como qualquer outra escolha, deve ser respeitada. Mas o que estamos testemunhando de uns tempos para cá é uma esquerdopatia que parece não ter remédio.

Desde o “eu sou a favor do assalto” dito pela filósofa petista Márcia Tiburi, que não causou grandes comoções por parte da imprensa, muita água – poluída – passou por baixo da ponte da racionalidade. Muitos concordaram com a “lógica do assalto” de Tiburi, que aponta o capitalismo como culpado: “Eu não tenho uma coisa que eu preciso, eu fui contaminado pelo capitalismo…” e tenta justificar que, dentro de um “contexto”, o “injusto até seria justo”. Resta saber em que contexto assaltar alguém é fazer justiça.

Depois de um furto numa escola na zona norte de São Paulo, bandido deixa bilhete pedindo perdão

Depois de um furto numa escola na zona norte de São Paulo, bandido deixa bilhete pedindo perdão
Reprodução

Mas é preciso ir além e a moda agora é mostrar o lado fofo dos bandidos, afinal, eles são apenas vítimas do sistema capitalista malvadão. Ao ler a manchete “Cachorro pede carinho a ladrões e ganha colo de um deles durante furto a casa” pensei que se tratasse de mais uma sacada do Sensacionalista, cujo slogan é “o jornal isento de verdade”. Que nada! Aliás, deve estar sendo um desafio e tanto para o noticiário de humor concorrer com a criatividade do “jornalismo” de hoje.

Na matéria, o fato ocorrido em Jataí, Goiás, é minimizado com termos como “situação inusitada”, “situação curiosa” e “dois homens tentam abrir a janela”. Nada de classificar a ocorrência como crime, de usar verbos como arrombar ou invadir, nem muito menos chamar os criminosos de bandidos ou ladrões. A matéria cita que um deles até interrompeu o que estava fazendo para protagonizar um momento fofura: “um dos homens para, acaricia o animal e chega a coloca-lo no colo.” Ai, que lindo, gente… até caiu um cisco aqui no meu olho! Não, não caiu nada. A frase é totalmente isenta de verdade e cheia de ironia com direito a revirar os olhos até a cabeça doer.

E o que dizer das tentativas de justificar crimes com base na teoria do “ladrão com causa”? Propósito é tudo na vida, não é mesmo?  Desde que haja “precisão” e que o criminoso deixe um bilhetinho fofo pedindo desculpas “de coração”, tudo bem! O crime, ou melhor, a “situação fofa e inusitada” aconteceu esta semana, quando um bandido, digo, cidadão, furtou uma escola na zona norte de São Paulo e, antes de sair, deixou uma nota: “Me desculpem mesmo de coração por fazer isso. Não tive escolha, precisão.” O bandido, que assina como “desesperado” também pede misericórdia e perdão divino.

Qual seria a “precisão” de furtar três televisores e uma CPU? Falta de escolha? Será que quem cata papelão e latinha para obter alguns trocados e colocar um pouco de comida na mesa o faz por pura escolha ou porque nem os momentos de desespero são capazes de roubar sua honestidade?

A questão é que o trabalho árduo que vem sendo feito ao longo de décadas para implementar uma total inversão de valores tem rendido frutos. Hoje em dia as pessoas se sentem muito mais indignadas com a morte de um cachorro do que com o assassinato a sangue frio de uma pessoa. Cachorros não devem ser mortos nem maltratados, óbvio, o problema está na desvalorização da vida humana e na banalização da criminalidade.

E como se isso fosse pouco, celebridades, influenciadores e lacradores em geral que sempre aparecem gritando freneticamente quando um bandido é morto pela polícia ou quando há um feminicídio, ficam caladinhos quando quem executa a ex-namorada a tiros de fuzil, joga o corpo no porta-malas para depois desová-lo em plena Baía de Guanabara é um traficante da pesada. Nesse caso, Anittas, esquerdistas e feministas em geral fazem um silêncio ensurdecedor. Até porque, lacradora malandra só lacra para cima da polícia que, em sua visão lacrada, nunca tem razão. Traficante merece respeito, né gente?

E os próximos capítulos dessa novela bizarra prometem trazer a descriminalização da pedofilia “em nome do amor” e outras aberrações que nem vale a pena citar para que a dor de cabeça pela revirada de olhos não piore.

Cada vez mais precisamos ser seletivos com os conceitos e ideias que permitimos entrar na nossa mente para que, no futuro, não sejamos coniventes com os absurdos que tentam nos empurrar goela abaixo como se fossem normais e aceitáveis. Não são e jamais deveriam passar a ser.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

 

You may have missed

5 min read
5 min read
2 min read