Abril 13, 2021

O coronel assassinado por não tolerar o crime

Pode acontecer de um coronel da Polícia Militar ser assassinado por um soldado da corporação?

Pode, concluíram a Corregedoria da PM, o Departamento de Homicídios e o Ministério Público. O crime seria militar, única exceção prevista pela Constituição de 1988 para o julgamento não ser feito pelo Tribunal do Júri, em crimes dolosos contra a vida.

Não pode, concluiu o Conselho Permanente de Justiça do Tribunal Estadual de Justiçar Militar, absolvendo um soldado, pela autoria, e um sargento, por co-autoria.

O coronel em questão era José Herminio Rodrigues, 48 anos, que havia assumido recentemente o comando do CPA/M-3, o comando de policiamento metropolitano na zona norte da Capital. Também era recente a sua promoção de tenente-coronel a coronel, feita com uma designação pré-determinada: assumir de imediato o comando norte, então problemático, porque infestado de matadores em execuções sumárias e vinculações corruptas com exploradores de jogos ilegais.

A Polícia Militar à margem da lei e a morte de um comandante digno da função

A Polícia Militar à margem da lei e a morte de um comandante digno da função
Diogo Moreira/30.04.2014/Divulgação

Na manhã seguinte à morte de Herminio, eu estava num link para a Record TV, montado na avenida engenheiro Caetano Álvares, o local do assassinato, bem no ponto onde ele foi alvejado por tiros de pistola calibre 380, disparados por um dos motoqueiros que ocupavam uma Falcon.

As manchas de sangue ainda estavam no chão. Bem ao lado delas, a história de Herminio passava como um filme na minha cabeça. Conheci-o, ainda tenente, no 1º Batalhão de Choque, e nosso relacionamento amigável passou por várias unidades, onde ele galgou todos os degraus hierárquicos do oficialato. Era um oficial exemplar, corretíssimo e disciplinado, cumprindo todas as missões que lhe eram confiadas. Para a última delas, foi chamado ao Quartel do Comando Geral e informado da promoção iminente, com uma condição sine-qua-non: comandar o CPA/M-

3, para lá de problemático, chegando a amedrontar até os comandantes – um deles pediu transferência imediata para uma cidade do interior, com receio da própria tropa.

Gangsteres de farda

Herminio já havia encarado situações difíceis ao longo da vida. Anos antes, acompanhou o caso de um coronel, Nelson Coura Martinho, seu parceiro como capitão na Rota, assassinado durante no final de um cooper à beira de lago na Vila Galvão, Guarulhos, atingido por seis tiros de pistola calibre 380, quando se prepara para entrar no carro. Tinha uma arma escondida no porta-malas, onde, no seu imaginário, seria trancado caso algum dia fosse sequestrado. Foi inútil.

Herminio não pensou duas vezes. Nunca havia fugido de uma missão, não seria justamente agora que iria vacilar. Ganhou as três estrelas gemadas nos ombros e partiu para a zona norte, onde logo descobriu que havia mais inimigos internos, ocultos, do que fora, para serem localizados. Seus conceitos disciplinares eram rígidos e a tropa logo percebeu que com ele as coisas seriam completamente diferentes. E ser diferente numa área contaminada pelo vil metal foi se tornando, aos poucos e cada vez mais, um comando de perigosa alta tensão.

Assim, a imagem de honesto, correto e comandante digno do nome, foi sendo substituída pela de um carrasco implacável, intransigente, um obstáculo intransponível para as negociatas que há muito tempo estavam em andamento. Corrupto não gosta de agua limpa. Assim, a ideia de eliminá-lo fisicamente foi ganhando corpo, unindo corações de pedra e mentes moralmente apodrecidas.

Morador da zona norte, Herminio gostava de pedalar e um dos seus trajetos matinais era a avenida Caetano Alvares, exatamente o lugar onde uma Falcon emparelhou com dois motoqueiros para matá-lo. O piloto usava um capacete com desenho de chamas. Herminio estava desarmado. Os projéteis que o atingiram partiram de uma pistola de uso privativo da Polícia.

O crime teve grande repercussão. Se bandidos não titubeavam em matar até o comandante da PM em toda a área norte, o que não poderia acontecer, então, com qualquer outra pessoa? Para a corporação, era humilhante ver-se afrontada pelo mundo do crime e, principalmente, vê-lo

infiltrado e dominante em uma de suas unidades. Era preciso extirpar o câncer com urgência para conter as metástases.

A Corregedoria da PM, a polícia da própria polícia, foi com tudo para apurar o episódio deplorável. Revistou armários no quartel, fez investigações sociais, verificou compatibilidade de salários com bens patrimoniais, verificou hábitos e costumes e chegou à conclusão de que a autoria do assassinato poderia ser atribuída a um soldado, principalmente, e a um sargento. O DHPP, Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, partilhou do teor dessa investigação.

Crime militar, militar matando outro. Julgamento pela Justiça Militar, onde processos desse tipo são muito raros. Com surpresa para a Corregedoria e o DHPP, o Conselho de Justiça entendeu que não havia provas suficientes para incriminar os acusados. E absolveu-os sumariamente, cinco anos após o crime. Um ano antes do julgamento, a Polícia Militar expulsou o soldado e o sargento de suas fileiras. O 18º BPM/M, onde os dois acusados estavam lotados, foi desmembrado, e gradativamente a maldição traumática que ali pairava foi sendo exorcizada.

As histórias contadas a sangue frio não foram interrompidas na zona norte. O rei de um jogo conhecido como “ronda”, conhecido por um apelido que remetia exatamente a isso, “Chico da Ronda”, foi assassinado na Casa Verde. Francisco Plumari Junior foi calibrar os pneus, propositadamente esvaziados, num posto de gasolina, e foi fuzilado. Não foi assaltado: trazia consigo US$ 3.200 e antigos 175 mil cruzados. Era o presidente da Escola de Samba Império da Casa Verde e deixou um legado, do mesmo modo como “Castelo”, que monopolizava o jogo-do-bicho até a invasão das máquinas caça-níqueis, sempre programadas para ganhar.

A rigor, essas histórias se entrelaçam e em torno delas existem muitos episódios à margem da lei, que definem poder, tráfico de influência e domínio. Isso significa que as esferas de persecução penal acabam enfrentando limites ao esbarrar nos impostos silêncios inevitáveis, a omertà mafiosa, e a tal de “falta de provas”, que livrou os acusados pelo assassinato de Herminio.

Resta, então, a homenagem póstuma. A Polícia Militar deu a José Herminio Rodrigues o nome do Comando de Policiamento

Metropolitano, bordado nas insígnias da unidade. Assim seu nome será sempre lembrado.

Quem era Herminio, é algo que pode se perder nas brumas do tempo. Por isso, ad perpetuam rei memoriam, para reverência e perpétua memória da coisa, registro que ele era um homem de princípios e ideais, assumindo conscientemente um cargo repleto de altos riscos, pagando com o próprio sangue o altíssimo preço por ser correto, honesto e decente. Assim sempre o vi ao longo da impecável carreira. Assim chorei, em silêncio, vendo o seu sangue derramado no asfalto da avenida Caetano Alvares, desaparecendo aos poucos sob o fluxo interminável de veículos.

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